Cansado ao final de mais um dia de trabalho, trânsito e agitação, Paulo adentra o lar na expectativa de encostar a cabeça no travesseiro. Pelo adiantar das horas, supunha que toda a família já estivesse dormindo. Embora a saudade dos filhinhos, não se sentia encorajado a dialogar com ninguém.

Realmente observa que as luzes estão apagadas, conservando-se acesa apenas uma luz mais fraca da sala de estar, a iluminar tenramente o ambiente. Preocupação da querida esposa, Alice, para que ele, ao chegar em casa, não encontrasse tudo escuro. Respirou fundo e a agradeceu mentalmente deixando fluir o amor que nutria pela querida companheira.

Deixou na sala a maleta, o paletó, desatou o nó da gravata, tirou os sapatos, dirigiu-se para a cozinha, a fim de comer uma fruta antes de tomar um banho e dormir. Ao chegar ao recinto, acendeu as luzes e deparou com um bilhete colado na porta da geladeira, endereçado a ele. Pela letra tremula reconheceu tratar-se de um bilhete de sua filha, Maria.

Pegou nas mãos a pequena carta, percebeu que havia um desenho logo no início, que lhe pareceu uma praia. Em seguida, sentou a mesa e leu:

“Querido papaizinho, boa noite.
Perguntei para a mamãezinha sobre a hora que chegaria, e ela me disse que trabalharia até tarde, então, perguntei se poderia deixar este bilhetinho para você.
Papai, estou tão preocupada, mas meu coração, quando penso em você, bate mais calmo. É porque sei que, seja o que for, você dará um jeito, sempre dá. Por isso te escrevo.
Sabe, vi outro dia na televisão que o homem está acabando com o planeta Terra. O repórter dizia que estamos devastando as florestas, matando os animais. Perguntei para minha professora, que me disse que é verdade. Ela então deu para todos nós a tarefa de procurar saber quais os meios para evitar que o mundo acabe e o que o homem está fazendo de errado.
Quando fiz a pesquisa, junto com o Júnior, que sabe muito melhor do que eu como mexer no computador, descobri coisas terríveis.
Papaizinho, porque o homem põe fogo nas matas e arranca a madeira do chão? E por que mata tantos animais? Papai, porque comemos os animais? Fiquei tão triste, tão triste, quando descobri que o hambúrguer, a salsicha, a coxinha, o coração de frango e outras coisas mais que eu como são partes de animais que foram mortos.
E papaizinho, por que para comer chocolate é preciso fazer sofrer tantas vacas?
Papai, chorei quando soube o destino dos bezerrinhos, que viram um tal de baby bife. Papai, por que o homem é tão mal?
Acho papai que o senhor também não sabia disso. Pensei sobre o que eu podia fazer, então pensei: meu papai é tão bom, poderá resolver o problema.
Papai, sabia que o homem mata as baleias? Papai, vi o mar cheio de sangue na internet. E vi um filme lá em que os peixes se debatiam na rede, desesperados. Papai, porque matamos os animais para comemorar o nascimento do menino Jesus e o dia que ele ressuscitou? Será que o menino Jesus ficaria feliz ao descobrir o jeito que vivem os meninos bezerros? Papai, e as mamães vacas?
Como faremos papaizinho? Não deixe mais isso acontecer. Por favor, papai, você pode tudo, ajude os animais, ajude a natureza, ajude a Deus.
Conto com você. Um beijo para meu super-herói do bem, Maria.”

Paulo perdeu a fome. Nunca tinha pensado deste jeito. Maria, em sua infantilidade, ainda conservava o amor puro e incondicional. E Paulo chorou ao pensar que sua filhinha querida achasse que ele não compartilhava de tudo aquilo. Pensou que ela herdaria o mundo que eles construíam. E que mundo? Cheio de crueldade, violência, tristeza, entre os homens e dos homens para com os outros filhos de Deus. Que fazer? O pedido da Maria para que ajudasse os animais, ajudasse a natureza e ajudasse a Deus o comoveu nas mais íntimas fibras do coração. Aproximava-se a Páscoa, e com ela o chamamento de Jesus para a renovação. Como espírita sabia que caminhavam para uma nova era. Paulo fez uma prece mental e sentiu-se renovado. Levantou-se abriu a geladeira e seu pensamento mudou. Olhou o peixe separado para a Páscoa e lhe veio a mente que não havia muito aquele corpo abrigava uma alma, um espírito em evolução. Olhou toda a carne e derivados e pensou: Senhor, estou comendo cadáveres! Olhou o leite e derivados e pensou: Será que não é possível substituí-los? Olhou os ovos e pensou no imenso sofrimento das galinhas em escravidão. Respirou fundo e pensou:

“Senhor Jesus, sei que há um caminho de mais amor, ajuda-nos a encontrá-lo. Em sua mente ouviu a voz do Mestre a dizer: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”

Paulo, decidido, jogou tudo que promovia o sofrimento dos animais no lixo, resolveu que abriria o coração e o lar para um comportamento de não violência para nenhum filho de Deus. Subiu lentamente as escadas, adentrou o quarto dos filhos, encontrou Maria ressonando. Aproximou-se da filha, beijou-lhe o rosto e disse baixinho:

— Papai promete filhinha, em nome de Deus, que achará um jeito de ajudar os animais, a natureza e a Deus. Obrigado filhinha, por seu amor.

Maria se mexeu de leve na cama e, embora dormindo, sorriu. Seu Espírito ouviu o pai e sentiu-se aliviado, pois um novo momento começaria, para todos.